segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Exame citológico de fígado: quando e porquê?


Exame citológico de fígado: quando e porquê?
Artigo da autoria de:
Filipe Sampaio DVM, MSc
Laboratório Veterinário INNO
filipesampaio@inno.pt


O exame citológico do sistema hepatobiliar é frequentemente utilizado como um apoio de outros exames complementares (i.e., exames clínico e bioquímico, ecografia abdominal, etc.). Nalguns casos, pode fornecer um diagnóstico definitivo ou estruturar uma lista de diagnósticos diferenciais e orientar o Médico Veterinário para a realização de análises adicionais. Trata-se de um exame pouco invasivo, económico e poderá não requerer anestesia.

As indicações para a realização de citologia de fígado incluem: aumento dos valores bioquímicos das enzimas hepáticas, alterações ecográficas como hepatomegália, alterações de ecogenicidade ou presença de massas, ou estadiamento de certas doenças neoplásicas. A principal contraindicação assenta em animais com funções hemostáticas comprometidas essencialmente devido a risco hemorrágico acrescido. Por isso, a avaliação prévia do perfil de coagulação e hemograma (nomeadamente a contagem plaquetar) são recomendadas nestas situações.

Um estudo de Fleming KL et al. (2019) avaliou a qualidade citológica de colheitas hepáticas realizadas pelos métodos aspirativo e não aspirativo, num conjunto de cães de diferentes raças, idades e sexos. Os resultados demonstraram uma maior prevalência de amostras diagnósticas quando a técnica não-aspirativa era usada (93,9%), comparativamente à técnica aspirativa (81,5%). Estes resultados poderão ser explicados pela rutura celular e maior hemodiluição provocada pela aspiração do tecido hepático, que é naturalmente muito vascularizado.

Em termos citológicos, diversos processos como neoplasias primárias ou metastáticas, infeções focais, síndrome de lipidose hepática felina, hepatopatia provocada por corticosteroides e amiloidose poderão ser facilmente diagnosticados. No entanto, a citologia não permite uma clara distinção entre patologias inflamatórias focais e doenças crónicas progressivas, nem a sua extensão. Nestes casos poderá ser necessário recorrer a exame histopatológico para determinar a gravidade, prognóstico e planos terapêuticos adequados.


Bibliografia consultada:

Fleming KL, Howells EJ, Villiers EJ, Maddox TW. A randomized controlled comparison of aspiration and non-aspiration fine-needle techniques for obtaining ultrasound-guided cytological samples from canine livers. The Veterinary Journal 252: DOI : 1016/j.tvjl.2019.105372, 2019.
Raskin RE, Meyer DJ. Canine and feline cytology – A Color Atlas and Interpretation Guide. 3°edição Elsevier Saunders, St.Louis, Missouri. Pp. 259-260, 2016
Cowell RL, Tyler RD, Meinkoth JH, DeNicola DB. Diagnostic cytology and hematology of the dog and cat. 4°edição Mosby Elsevier, St.Louis, Missouri. Pp. 345-356, 2014

terça-feira, 15 de junho de 2021

Padrões de resistência antimicrobiana de bactérias isoladas exsudados auriculares de animais de companhia em Portugal


Otite externa
Artigo da autoria de:
Andreia Garcês DVM, MSc, PhD
Laboratório Veterinário INNO
andreiagarces@inno.pt


A otite externa é uma das doenças mais comuns em animais de companhia, em particular nos cães [1]. O seu diagnóstico é feito com base na história do animal, exame otoscópico da membrana timpânica e sinais clínicos como eritema, edema, odor fétido e prurido. É uma doença de etiologia multifatorial, sendo as leveduras e bactérias a principal etiologia [2,3]. Citologia, cultura microbiológica e testes de suscetibilidade antibacteriana são necessários para um correto diagnóstico e tratamento.

Foram analisadas todas as culturas microbiológicas de exsudados auriculares de cães e gatos submetidas ao Laboratório Veterinário INNO entre janeiro de 2017 e dezembro de 2019. Apenas os isolados positivos com crescimento bacteriano foram selecionados.

Um total de 2715 amostras tiveram resultado positivo para crescimento bacteriano. Das amostras positivas, 76,6% eram culturas puras e 23,4% mistas. No total, 3544 agentes foram isolados.

Os animais com infeção eram na sua maioria machos (56%). A classe de idade mais afetada foi entre 6-11 anos (34,8%), seguido dos animais jovens com 0-5 anos (29%). As raças de cães mais afetadas por otite foram o Golden Retriver (n=540), animais sem raça definida (SDR) (n=484) e buldogue francês/inglês (n=228). A raças de gato mais afetadas foram o europeu comum (n=125) e o persa (n=26). Estes resultados seguem em linha com o que encontra descrito na bibliografia em que os cães de raças com orelhas pendulares, hipertricose e excesso de humidade possuem predisposição para desenvolverem otite externa [2]

O principal agente etiológico isolado foi a Staphylococcus pseudointermedius (29,7%, n=1027), seguido da Pseudomonas aeruginosa (14,6%, n=506). Dos 1027 S. pseudintermedius e 121 S. aureus isolados, foi observado que 9% (44 em 503 testados para oxacilina) são S. pseudintermedius resistente à meticilina (MRSP), e 6% (3 em 51 testados para oxacilina) são S. aureus resistente à meticilina (MRSA). Cerca de 26% das S. aureus e 17 % S. pseudintermedius eram MDR. No caso de Pseudomonas aeruginosa 17 apresentavam resistência a carbapenemes., e 277 eram MDR (54,7%).

Relativamente à sensibilidade antimicrobiana, observamos que existe um predomínio de resistência aos antibióticos da categoria D. Na categoria D, inserem-se as classes de antibióticos utilizados como primeira linha de tratamento, como penicilinas, tetraciclinas, sulfonamidas entre outros [4]. Ao longo dos três anos de estudo foi possível observar que tem vindo a aumentar a resistência a antibióticos da categoria C. A utilização de antibióticos desta categoria deve ser feita com cuidado e limitada a situações em que não há alternativas da categoria D. Na categoria B e A para o período de estudo parece que tem vindo a diminuir o número de resistências, que é uma tendência que se deve tentar manter, uma vez que nestas duas categorias estão incluídas classes de antibióticos que são importante para medicina humana e alguns cujo uso é proibido em animais [4].

Os resultados obtidos neste estudo mostraram que em Portugal as otites de origem bacteriana seguem a mesma tendência que em outros países [1,2,5] e ajudam a compreender a situação a nível nacional, onde os estudos nesta área são quase inexistentes. Para além disso, realçam a importância de uma avaliação clínica individualizada nos quadros de otite externa e média em pequenos animais, reforçando a importância da realização de exame microbiológico e antibiograma como forma de selecionar o tratamento mais adequado e combater o aumento de bactérias multirresistentes.


Bibliografia consultada:

1 - Colombini S, Merchant SR, Hosgood G. Microbial flora and antimicrobial susceptibility patterns from dogs with otitis media. Vet Dermatol. 2000;11(4):235–9.
2 - Almeida MDS, Santos SB, Mota ADR, Da Silva LTR, Silva LBG, Mota RA. Isolamento microbiológico do canal auditivo de cães saudáveis e com otite externa na região metropolitana de Recife, Pernambuco. Pesqui Vet Bras. 2016;36(1):29–32.
3 - Oliveira LC, Brilhante RSN, Cunha AMS, Carvalho CBM. Perfil de isolamento microbiano em cães com otite média e externa associadas. Arq Bras Med Vet e Zootec. 2006;58(6):1009–17.
4 - Categorisation of antibiotics used in animals promotes responsible use to protect public and animal health | European Medicines Agency [Internet]. [cited 2020 Mar 2]. Available from: https://www.ema.europa.eu/en/news/categorisation-antibiotics-used-animals-promotes-responsible-use-protect-public-animal-health
5 - De Martino L, Nocera FP, Mallardo K, Nizza S, Masturzo E, Fiorito F, et al. An update on microbiological causes of canine otitis externa in Campania Region, Italy. Asian Pac J Trop Biomed [Internet]. 2016;6(5):384–9. Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.apjtb.2015.11.012

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Anemia por deficiência em ferro


Microbiologia - urina
Augusto Silva, DVM
Laboratório Veterinário INNO
augustosilva@inno.pt


O desenvolvimento de anemia por deficiência em ferro desenrola-se em 3 etapas, que podem ser caracterizadas através de diferentes achados laboratoriais (tabela 1).

  1. Como consequência de um aporte nutricional insuficiente (raro) ou por perda externa crónica de sangue, ocorre uma deficiência em ferro. Nesta fase, a única alteração é a diminuição do ferro na medula óssea, visualizada como hemossiderina em esfregaços de medula corados com azul da Prússia.

  2. Quando se esgotam as reservas de ferro na medula óssea, começa a ocorrer eritropoise deficiente em ferro e o ferro sérico e a % de saturação da transferrina começam a diminuir.

  3. No último estádio, surgem eritrócitos microcíticos e hipocrómicos - está estabelecida a anemia por deficiência em ferro.
Tabela 1. Desenvolvimento de anemia por deficiência em ferro Tabela 1. Desenvolvimento de anemia por deficiência em ferro

Durante a perda aguda de sangue, as reservas corporais de ferro são geralmente suficientes para responder a uma eritropoiese acelerada, pelo que a anemia por deficiência em ferro só se desenvolve após semanas a meses de perdas crónicas e recorrentes de sangue, tanto em animais jovens como adultos. As causas mais frequentes de perda externa crónica de sangue são hemorragia gastrointestinal, infestações severas por parasitas hematófagos (tais como pulgas, carraças ou ancilostomídeos), hematúria, epistaxis, coagulopatia, trombocitopenia e trombocitopatia.

O diagnóstico de anemia por deficiência em ferro pode ser estabelecido laboratorialmente através da realização de vários testes:
  • Concentração de ferro sanguíneo
  • Capacidade total de fixação do ferro
  • % de saturação da transferrina
  • Ferritina
  • Outros testes (índices reticulocitários e aspirados de medula óssea)

A ferritina pode ser detectada no soro e tem uma boa correlação com as reservas de ferro no organismo; no entanto, o ensaio para medição da ferritina é espécie-específico e a sua disponibilidade em laboratórios de análises clínicas é ainda muito reduzida.

A medição da concentração de ferro é usada como uma maneira de avaliar as reservas de ferro no organismo. No entanto a sua utilização tem algumas limitações, uma vez que a sua concentração representa apenas uma pequena fracção do ferro total do organismo (<0,1%) e flutua rapidamente devido ao seu rápido “turn-over” ou presença de processos inflamatórios mediados por citoquinas.

A capacidade total de fixação do ferro é uma medição indirecta da transferrina, uma proteína de fase aguda negativa responsável pelo transporte do ferro.

A % de saturação da transferrina é um indicador da quantidade de transferrina que se encontra saturada com ferro e que, num animal saudável, é cerca de 33%.

As alterações destes três resultados devem ser interpretadas em conjunto. Assim, como forma de auxiliar o diagnóstico de anemia por deficiência em ferro, passamos a disponibilizar um painel de metabolismo do ferro que inclui a medição da concentração de ferro sérico, capacidade total de fixação do ferro (TIBC) e percentagem de saturação da transferrina, e que deverá ser solicitado na presença das seguintes indicações:
  • Quadro clínico compatível e história de perda de sangue externa ou parasitismo;
  • Anemia microcítica hipocrómica - hemograma com hematócrito, volume celular médio (MCV) e índices de concentração de hemoglobina (MCH ou MCHC) diminuídos;
  • Hipoproteinémia (diminuição da concentração sérica de albumina e globulinas, com rácio A:G normal).

Este painel permite estabelecer um diagnóstico de anemia por deficiência em ferro, ao mesmo tempo que fornece informação adicional sobre outros possíveis processos patológicos (tabela 2):

Tabela 2. Interpretação do painel de metabolismo do ferro Tabela 2. Interpretação do painel de metabolismo do ferro



Bibliografia consultada:

1 – Bohn AA. Diagnosis of disorders of iron metabolismo in dogs and cats. Vet Clin Small Animal 2013; 43:1319-1330
2 – Naigamwalla DZ, Webb JA, Giger U. Iron deficiency anemia. Can Vet J 2012; 53:250-256
3 – Weiss DJ, Iron and copper deficiencies and disorders of iron metabolism. In Schalm’s Veterinary Hematology 6th Edition. Wiley-Blackwell
4 – Iron metabolism [Internet] Available from: https://www.eclinpath.com/chemistry/iron-metabolism/

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Infeções do trato urinário em pequenos animais: um estudo retrospetivo das culturas urinárias entre 2017-2019


Microbiologia - urina
Artigo da autoria de:
Andreia Garcês DVM, MSc, PhD
Laboratório Veterinário INNO
andreiagarces@inno.pt


As infeções do trato urinário (ITU) são comuns em Medicina Veterinária, particularmente em canídeos. O seu diagnóstico é feito com base na história clínica (história de polaquiúria, estrangúria, disúria, hematúria, micção inadequada, ou periuria), exame físico, urianálise e cultura urinária. A cultura microbiológica combinada com os testes de sensibilidade é a melhor ferramenta para o diagnóstico e tratamento das ITU [1–4].

Neste trabalho analisamos os resultados de culturas urinárias admitidas no Laboratório veterinário INNO no período de 2017-2019, de forma a observar como tem evoluído neste período em Portugal a resistência antimicrobiana em bactérias isoladas de infeções do trato urinário de animais de companhia.

De 2017 a 2019 um total de 8274 amostras de urina foram submetidas para exame microbiológico. Destas 5778 tiveram crescimento amicrobiano e as restantes 2465 crescimento microbiano. Das amostras positivas um total de 2611 agentes foram isolados. Das amostras positivas 98% eram culturas puras, e 2% mistas. Os animais com infeção eram na sua maioria machos (56%). A classe de idade mais afetada foi entre 6-11 anos (31,6%), seguido dos animais geriátricos com 11-20 anos (30,6%). Neste estudo o principal agente isolado foi Escherichia coli, com uma prevalência de 47,6% (n=1244). Destas 1,9% (n=24) eram multiresistentes (MRD), 5,1% (n=64) apresentavam resistência a carbapenemes e 1,9%(n=24) eram enterobacteriaceae produtoras de β-lactamase de espectro alargados (ESBL).

Durante o período de 2017-2019, foi possível observar um aumento de resistência a antibióticos da categoria A, apesar de predominar a resistência aos antibióticos da categoria D. O predomínio de resistência a antibióticos da categoria D, era expectável, uma vez que são os antibióticos de primeira linha. Ao longo do período de 3 anos parece existir uma diminuição na percentagem de resitência nas categorias A, D. Na categoria A, é uma tendência que se deve tentar manter, uma vez que nestas duas categorias estão incluídas classes de antibióticos que são importante para medicina humana e alguns cujo uso é proibido em animais [5]Na categoria C parecem ter vindo aumentar a percentagem de resistências o que deve ser visto com preocupação.

O padrão de resistência é semelhante ao que tem sido descrito um pouco por toda a Europa. A baixa percentagem de ESBL e MRD E. coli já foi observada em outros estudos, apesar de já terem sido descritas percentagens mais elevadas na Europa [6,7].

Os resultados observados neste estudo contribuem para a compreensão dos padrões de resistência antimicrobiana ITU na população de animais domésticos em Portugal. A maioria das ITU são tratadas com sucesso com tratamento apropriado, mas infelizmente, devido à presença de bactérias multirresistentes o tratamento pode se prolongar ou ocorrer o risco de infeções recorrentes. Estas bactérias também são responsáveis pela debilidade do sistema imunitário do animal. Nestes animais é necessário identificar as causas associadas à predisposição para esta infeção e as terapias devem ser usadas como prevenção em vez de tratamento [3,4]. As culturas microbiológicas combinadas com os testes de sensibilidade são essenciais para um tratamento eficaz das ITU.


Bibliografia consultada:

1 - Guardabassi L, Schwarz S, Lloyd DH. Pet animals as reservoirs of antimicrobial-resistant bacteria. J Antimicrob Chemother. 2004;54(2):321–32. 
2 - Magiorakos AP, Srinivasan A, Carey RB, Carmeli Y, Falagas ME, Giske CG, et al. Multidrug-resistant, extensively drug-resistant and pandrug-resistant bacteria: An international expert proposal for interim standard definitions for acquired resistance. Clin Microbiol Infect [Internet]. 2012;18(3):268–81. Available from: http://dx.doi.org/10.1111/j.1469-0691.2011.03570.x 
3 - Weese JS, Blondeau JM, Boothe D, Breitschwerdt EB, Guardabassi L, Hillier A, et al. Antimicrobial use guidelines for treatment of urinary tract disease in dogs and cats: Antimicrobial guidelines working group of the international society for companion animal infectious diseases. Vet Med Int. 2011;2011. 
4 - Bartges JW. Diagnosis of urinary tract infections. Vet Clin North Am - Small Anim Pract. 2004;34(4):923–33. 
5 - Categorisation of antibiotics used in animals promotes responsible use to protect public and animal health | European Medicines Agency [Internet]. [cited 2020 Mar 2]. Available from: https://www.ema.europa.eu/en/news/categorisation-antibiotics-used-animals-promotes-responsible-use-protect-public-animal-health 
6 - Smee N, Loyd K, Grauer GF. UTIs in small animal patients: Part 2: Diagnosis, treatment, and complications. J Am Anim Hosp Assoc. 2013;49(2):83–94. 
7 - Punia M, Kumar A, Charaya G, Kumar T. Pathogens isolated from clinical cases of urinary tract infection in dogs and their antibiogram. Vet World. 2018;11(8):1037–42. 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Imunocitoquímica de linfomas em lâminas de citologia – uma técnica em expansão


População de células linfóides Anticorpos anti-CD20 Categorização de antibióticos Figura 1. Linfoma de grandes células B difuso em cão. Punção por agulha fina de gânglio linfático pré-escapular aumentado. A - População de células linfóides médias a grandes e abundantes corpos linfoglandulares; e raros linfócitos pequenos. Diff-Quik, 400x. B - Anticorpos anti-CD20. Positividade maioritária em células linfóides neoplásicas (400x). C - Anticorpos anti-CD3. Positividade minoritária em células linfóides não neoplásicas (400x).
Artigo da autoria de:
Filipe Sampaio, DVM, MSc
Laboratório Veterinário INNO
filipesampaio@inno.pt


O exame citológico é um método rápido, fácil e económico que permite um diagnóstico confiável de linfoma em Medicina Veterinária [1]. A classificação de linfoma inclui um protocolo estruturado que engloba classificações histológicas, imunofenotípicas e moleculares que determinam diferentes prognósticos e esquemas terapêuticos [2-4]. Porém, para as realizações destes exames, os animais são muitas vezes sujeitos a intervenções médicas que envolvem custos adicionais.

Atualmente, o desenvolvimento e a aplicação de técnicas de imunofenotipagem em preparações citológicas submetidas aos nossos laboratórios, com ou sem coloração prévia, permitem obter informação sobre o fenótipo celular de uma forma simples e prática. Desta maneira, evita-se repetir procedimentos muitas vezes invasivos e dispendiosos, frequentemente associados a um considerável risco anestésico e que são morosos para os médicos veterinários.

A combinação de citologia com imunocitoquímica (ICQ) é um procedimento que já se provou eficaz na caraterização fenotípica das neoplasias linfoproliferativas [1, 3, 5, 6]. A ICQ é uma técnica usada para identificar microscopicamente antigénios em material citológico [5]. A classificação das células linfóides é feita recorrendo a anticorpos específicos, mono ou policlonais, identificando o fenótipo celular: B ou T.

A determinação do fenótipo B ou T, conjuntamente com a avaliação citológica das células linfóides, constitui uma importante ferramenta não só na classificação, mas também no prognóstico de linfomas [2, 5, 6].

Para mais esclarecimentos técnicos, contacte o nosso laboratório.


Bibliografia consultada:

1 - Caniatti, M., et al., Canine lymphoma: immunocytochemical analysis of fine-needle aspiration biopsy. Vet Pathol, 1996. 33(2): p. 204-12. 
 2 - Ponce, F., et al., A morphological study of 608 cases of canine malignant lymphoma in France with a focus on comparative similarities between canine and human lymphoma morphology. Vet Pathol, 2010. 47(3): p. 414-33. 
 3 - Sapierzynski, R., Practical aspects of immunocytochemistry in canine lymphomas. Pol J Vet Sci, 2010. 13(4): p. 661-8. 
 4 - Valli, V.E., et al., Classification of canine malignant lymphomas according to the World Health Organization criteria. Vet Pathol, 2011. 48(1): p. 198-211. 
 5 - Priest, H.L., et al., The use, publication and future directions of immunocytochemistry in veterinary medicine: a consensus of the Oncology-Pathology Working Group. Vet Comp Oncol, 2017. 15(3): p. 868-880. 
 6 - Raskin, R.E., et al., Optimized immunocytochemistry using leukocyte and tissue markers on Romanowsky-stained slides from dogs and cats. Vet Clin Pathol, 2019. 48 Suppl 1: p. 88-97.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Categorização dos antibióticos para utilização em animais


Categorização de antibióticos
Artigo da autoria de:
Augusto Silva, DVM
Laboratório Veterinário INNO
augustosilva@inno.pt


O surgimento e o aumento consistente de ocorrências de bactérias resistentes a múltiplos antibióticos são uma ameaça à saúde pública global. Tendo em vista a redução de bactérias resistentes que possam ser transferidas a humanos quer pela via da cadeia alimentar ou quer pelo contacto directo, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), através do AMEG (Antimicrobial Advice Ad Hoc Expert Group), publicou no início de 2020 um documento onde é efectuada a categorização dos antibióticos para utilização em animais com vista a um uso prudente e responsável:

  • Categoria A (“Avoid”) inclui antibióticos actualmente não autorizados para utilização em medicina veterinária na UE. Estes antibióticos não podem ser usados em animais de produção e podem ser dados a animais de companhia apenas em circunstâncias excepcionais.

  • Categoria B (“Restrict”) inclui quinolonas, cefalosporinas de 3ª e 4ª gerações e polimixinas. Os antibióticos desta categoria são de elevada importância em medicina humana e o seu uso em animais deve ser restringido a situações de mitigação de risco para a saúde pública e quando não há alternativas clinicamente eficazes nas Categorias C e D.

  • Categoria C (“Caution”) inclui antibióticos para os quais geralmente existem alternativas em medicina humana na UE, mas nem sempre existem alternativas para utilização em medicina veterinária na Categoria D. Devem ser usados apenas quando não há substâncias clinicamente eficazes na Categoria D. Esta categoria inclui, entre outros, antibióticos dos seguintes grupos: aminoglicosídeos, cefalosporinas de 1ª e 2ª gerações, aminopenicilinas com inibidores das beta lactamases, macrólidos.

  • Categoria D (“Prudence”) inclui antibióticos que devem ser usados como primeira linha de tratamento sempre que possível, e apenas quando medicamente justificável. Esta categoria inclui, entre outros, antibióticos dos seguintes grupos: penicilinas sensíveis às beta lactamases, aminopenicilinas sem inibidores das beta-lactamases, tetraciclinas, sulfonamidas.


Outros factores a considerar na selecção do antibiótico para tratamentos individuais incluem a via de administração. Na lista abaixo são sugeridas as vias de administração e formulações, classificadas do menor para o maior impacto na resistência a antibióticos:

  • Tratamento tópico (p.ex: formulações para aplicação auricular ou ocular)

  • Tratamento parentérico (intravenoso, intramuscular ou subcutâneo)

  • Tratamento oral (comprimidos, suspensão oral)


Para informação mais detalhada pode consultar o site da EMA.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Tumores felinos mais frequentes – Uma abordagem racial em um estudo retrospectivo de 10 anos



Artigo da autoria de:
Andreia Garcês1, Leonor Delgado2, Paula Brilhante Simões2, Isabel Pires3,4, Felisbina Queiroga13, Justina Prada3,4
1 CITAB- Centro de Investigação e Tecnologias Agroambientais e Biológicas, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
2 INNO Laboratório, Serviços especializados em veterinária, Braga, Portugal
3 Departamento de Ciências Veterinárias da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
4 CECAV - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
geral@inno.pt


O cancro é uma doença comum em gatos, apesar de ser menos comum do que se tem vindo a observar em cães (Cannon, 2015). É um processo de várias fases e com uma etiologia multifatorial, como químicos, vírus oncogénicos, genética, hormonas e outros (Graf et al., 2016). Semelhante ao que já foi observado em cães, algumas raças de gatos puros parecem ter uma maior predisposição genética para desenvolver determinados tipos de tumores, provavelmente ligados à transmissão de genes anormais que são uma condição prévio para a transformação celular maligna, influenciando direta ou indiretamente os genes supressores de tumores e oncogenes (Davis e Ostrander, 2014).

Este estudo preliminar trata-se de uma pesquisa retrospetiva e descritiva que se baseou nos registos de 10 anos de diagnóstico de tumores em gatos fornecidos por um laboratório veterinário situado em Portugal. Os dados recolhidos incluíram os registos de diagnóstico de amostras produzidas por dois métodos de diagnóstico diferente: o exame post mortem e a biópsia, todas derivadas de exames microscópico. Apenas a informação relacionada com a raça e a localização do tumor nos diferentes órgãos foi utilizada. A classificação do tumor foi baseada na Classificação Internacional da OMS de Tumores de Animais Domésticos em 17 categorias diferentes (Meuten, 2017). Os tumores incluídos neste estudo tiveram origem na pele, tecidos moles, ossos, articulações, músculo, aparelho digestivo, glândulas endócrinas, olhos, aparelho genital, aparelho hemolinfático, fígado e vesícula biliar, glândula mamária, sistema nervoso, aparelho respiratório e aparelho urinário.

Foram analisados um total de 2785 gatos diagnosticados com tumores, de 8 raças diferentes: europeu de pelo curto (1788, 64,2%), maine coon (2, 0,10%), bosque da noruega (28, 1,0%), gato oriental de pelo curto (3, 0,1%), gato persa de pelo longo (152, 5,8%), siamês (170, 6,1%), angorá turco (3, 0,1%) e sem raça definida (629, 22,6%). No gato europeu de pelo curto, 42,2% (n = 755) dos tumores eram de origem mamária, 20,8% (n = 372) eram tumores mesenquimais da pele e tecidos moles e 15,8% (n = 283) eram tumores epiteliais e melanocíticos pele. Nos gatos persas de pelo longo, os tumores da glândula mamária foram os mais comuns 43,4% (n = 66), seguidos pelos tumores epiteliais e melanocíticos da pele (n = 28, 18,4%). O gato bosque da noruega apresentava 35,7% (n = 10) de tumores epiteliais e melanocíticos da pele e tecidos moles e 28,6% (n = 8) de tumores mesenquimais da pele e tecidos moles. No gato siamês, 45,3% (n = 77) eram tumores da glândula mamária e 21,2% (n = 36) tumores mesenquimais da pele e tecidos moles. Nos gatos sem raça definida, 39,4% (n = 248) dos tumores estavam localizados na glândula mamária e 18,0% (n = 113) eram tumores epiteliais e melanocíticos da pele.

Neste trabalho preliminar, os tumores da glândula mamária e os tumores mesenquimais da pele e tecidos moles foram os predominantes na população estudada. Estes estudos baseados numa grande quantidade de amostras recolhidas durante longos períodos de tempo, são importantes para entender a situação dos tumores felinos em Portugal. Os resultados atuais podem ser altamente úteis para informar melhor os clientes, diagnóstico e tratamento precoces de tumores felinos e também contribuem para a oncologia comparativa de humanos e animais de companhia.



Bibliografia consultada:

1 - Cannon C. Cats, Cancer and Comparative Oncology. Vet Sci 2015;2:111–26.
2 - Davis BW, Ostrander EA. Domestic dogs and cancer research: A breed-based genomics approach. ILAR J 2014;55:59–68.
3 - Graf R, Grüntzig K, Boo G, Hässig M, Axhausen KW, Fabrikant S, et al. Swiss Feline Cancer Registry 1965-2008: The Influence of Sex, Breed and Age on Tumour Types and Tumour Locations. J Comp Pathol 2016;154:195–210.
4 - Meuten D, editor. Tumors in domestic animals. 5th edition. Ames, Iowa: John Wiley & Sons Inc; 2017.
5 - Todorova I. Prevalence and Etiology of the Most Common Malignant Tumours in Dogs and Cats. Bulg J Vet Med 2006;9:85–98.

Tumores caninos mais frequentes - Uma abordagem racial em um estudo retrospectivo de 10 anos



Artigo da autoria de:
Andreia Garcês1, Leonor Delgado2, Paula Brilhante Simões2, Isabel Pires3,4, Felisbina Queiroga13, Justina Prada3,4
1 CITAB- Centro de Investigação e Tecnologias Agroambientais e Biológicas, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
2 INNO Laboratório, Serviços especializados em veterinária, Braga, Portugal
3 Departamento de Ciências Veterinárias da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
4 CECAV - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
geral@inno.pt


O cancro é uma doença comum em cães e representa uma das principais causas de mortalidade canina. Animais sem raça definida e de raça pura podem ser afetados (Komazawa et al., 2016). Embora a etiologia da maioria dos tumores seja provavelmente de origem multifatorial, algumas raças de cães com pedigree aparentam ter um maior risco para determinado tipo de tumores (Dobson, 2013; Grüntzig et al., 2016). Neste trabalho, o nosso objetivo foi determinar quais os tumores mais frequentes nas diferentes raças de cães existentes em Portugal.

Este estudo preliminar trata-se de uma pesquisa retrospetiva e descritiva que se baseou nos registos de 10 anos de diagnóstico de tumores em cães fornecidos pelo Laboratório INNO. Os dados recolhidos incluíram os registos de diagnóstico de amostras produzidas por dois métodos de diagnóstico diferente: o exame post mortem e a biópsia, todas derivadas de exames microscópico. Apenas a informação relacionada com a raça e a localização do tumor nos diferentes órgãos foram utilizadas. A classificação do tumor foi baseada na Classificação Internacional da OMS de Tumores de Animais Domésticos em 17 categorias diferentes (Meuten, 2017). Os tumores incluídos neste estudo tiveram origem na pele, tecidos moles, ossos, articulações, músculo, aparelho digestivo, glândulas endócrinas, olhos, aparelho genital, aparelho hemolinfático, fígado e vesícula biliar, glândula mamária, sistema nervoso, aparelho respiratório e aparelho urinário.

Foram analisados no total 10781 cães diagnosticados com cancro, de 88 raças diferentes. As raças predominantes foram: cães de raça não definida (4291, 39.8%), labrador retriever (1010, 9.4%), cocker spaniel inglês (469, 4.4%), pastor alemão (365, 3.4%), husky siberiano (276, 2.6%), yorkshire terrier (277, 2.6%), golden retriever (274, 2.5%), pinscher miniatura (131, 1.2%) e o pitbull terrier americano (116, 1.1%).

Nos cães de raça não definida, 32.6% (n=1398) dos tumores tiveram origem na glândula mamária e 21.3% (n=912) eram tumores epiteliais e melanocíticos da pele. Nos huskies siberianos 31.9% (n=88) eram tumores epiteliais e melanocíticos da pele e 24.6% (n=68) tumores da glândula mamária. No yorkshire terrier 21.3% (n=59) eram tumores epiteliais e melaníticos da pele e 44.4% (n=123) tumores da glândula mamária. O cocker spaniel inglês observou-se que 32.9% (n=154) eram tumores da glândula mamária e 27.3% (n=128) tumores epiteliais e melanocíticos da pele. No pastor alemão 35.1% (n=128) dos tumores eram da glândula mamária e 25.2% (n=92) tumores epiteliais e melanocíticos da pele. No golden retriever 27.4% (n=75) dos tumores eram epiteliais e melanocíticos da pele e 16.4% (n=45) da glândula mamária. No labrador retriever 23.0% (n=232) dos tumores eram epiteliais e melanocíticos da pele e 20.7% (n=209) tumores mesenquimatosos da pele e tecidos moles.

Neste trabalho podemos observar que os tumores epiteliais e melanocíticos da pele são os predominantes, seguidos de tumores mesenquimatosos da pele e tecidos moles e glândula mamária. Poucos estudos desta magnitude foram publicados, fazendo deste trabalho uma importante contribuição para a epidemiologia de tumores caninos. Para além disso, os resultados apresentados podem também ser uma contribuição para o campo da oncologia comparada.


Bibliografia consultada:

1 - Anfinsen KP, Grotmol T, Bruland OS, Jonasdottir TJ. Breed-specific incidence rates of canine primary bone tumors - a population based survey of dogs in Norway. Can J Vet Res 2011;75:209–15. 
2 - Dobson JM. Breed-Predispositions to Cancer in Pedigree Dogs. ISRN Vet Sci 2013;2013:1–23.
3 - Grüntzig K, Graf R, Boo G, Guscetti F, Hässig M, Axhausen KW, et al. Swiss Canine Cancer Registry 1955–2008: Occurrence of the Most Common Tumour Diagnoses and Influence of Age, Breed, Body Size, Sex and Neutering Status on Tumour Development. J Comp Pathol 2016;155:156–70. 
4 - Komazawa S, Sakai H, Itoh Y, Kawabe M, Murakami M, Mori T, et al. Canine tumor development and crude incidence of tumors by breed based on domestic dogs in Gifu prefecture. J Vet Med Sci 2016;78:1269–75. 
5 - Meuten D, editor. Tumors in domestic animals. 5th edition. Ames, Iowa: John Wiley & Sons Inc; 2017.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Otite externa: uma colheita adequada é fundamental para o diagnóstico



Artigo da autoria de:
Daniela Duque, DVM
Laboratório Veterinário INNO
danieladuque@inno.pt


A otite externa é uma das queixas mais comuns nas consultas de cães e gatos. Há numerosos agentes envolvidos tais como fungos (Malassezia pachydermatis), ácaros (Octodectes cynotis) e bactérias (Staphylococcus spp., Proteus spp. Pseudomonas spp., Escherichia coli).1 No caso dos ácaros estes podem atuar com agentes primários na otite externa enquanto os fungos e bactérias são geralmente considerados oportunistas e fatores perpetuadores na patogénese da otite.1 Nas causas primárias, para além dos ácaros, incluem-se por exemplo processos alérgicos e endocrinopatias que ao originarem reações inflamatórias levam à proliferação da microflora local.1

Para um correto maneio da otite externa em cães e gatos é fundamental determinar, para cada caso, as causas primárias predisponentes e perpetuadoras da patologia. Para além disso, é essencial um diagnóstico e escolha adequada do tratamento.1

Para um correto diagnóstico de otite externa é fundamental um bom exame físico, parasitológico, citológico e cultural permitindo a identificação da etiologia e de seguida a escolha do tratamento adequado evitando desta forma as recidivas e insucessos terapêuticos.1

Quanto à colheita do material para citologia e cultura é importante que esta seja feita de forma asséptica, sendo recomendada a limpeza superficial do pavilhão auricular com gaze estéril e soro fisiológico. De seguida, utilizando uma zaragatoa deve friccionar-se a parede do canal auditivo, o mais profundamente possível, evitando o contacto com o cerúmen e outros materiais contaminados. Devem ser utilizadas zaragatoas diferentes para citologia e cultura. No caso da citologia, o material da zaragatoa deve ser espalhado suavemente numa lâmina logo após a colheita e na cultura a zaragatoa deve ser colocada no meio de transporte e imediatamente fechada.

Os agentes mais frequentemente isolados nas culturas auriculares são: Pseudomonas aeruginosa, S. pseudointermedius, E. coli e Proteus mirabilis. Uma vez que os exsudados auriculares são por norma extremamente contaminados, o tempo de resposta destas culturas é, inevitavelmente, mais prolongado, pois exige múltiplas repicagens das colónias em crescimento, até se conseguir uma cultura pura do agente predominante, que será o causador da doença. Quanto mais asséptica for a colheita, menor a contaminação e também menor a probabilidade de resultados inconclusivos indesejados (polimicrobianos).

Após a identificação por citologia e cultura de um eventual agente infecioso é essencial a realização de um antibiograma. Para uma adequada abordagem terapêutica deve ser realizada limpeza e administração preferencialmente tópica de anti-inflamatório e antibiótico. A antibioterapia deve sempre ser realizada de acordo com a suscetibilidade do agente em causa.2


Bibliografia consultada:

1 - Nardoni S, Ebani, VV, Fratini F, Mannella R, Pinferi G, Mancianti1 F, Finotello R, Perrucci S. Malassezia, mites and bacteria in the external ear canal of dogs and cats with otitis externa. Slov Vet Res 2014; 51(3):113-18. 
 2 - Malayeri HZ, Jamshidi S, Salehi TZ. Identification and antimicrobial susceptibility patterns of bacteria otitis externa in dogs. Vet Commun 2010; 34:435-444.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Inovação em Histopatologia. Já é possível fazer a classificação de linfoma em amostras líquidas


                       
Temos disponível, desde o início do ano, uma técnica para tipificação de linfomas, aplicada a efusões.

A técnica, amplamente usada em medicina humana, apenas tem sido usada nos últimos anos em veterinária e aplica-se a diversos tipos de líquidos – efusões, LCR, lavados broncoalveolares, urina ou sangue.

Esta metodologia, designada por técnica de “cell-tube”, foi descrita pelo Professor Doutor Ricardo Marcos (ICBAS) num artigo da revista Veterinary Clinical Pathology em 2017 e permite obter blocos de parafina a partir das amostras líquidas; a estes blocos é possível aplicar todas as técnicas histoquímicas, imunohistoquímicas ou testes moleculares.

Às efusões enviadas para estudo e classificação, uma vez diagnosticadas com linfoma, pode ser aplicada esta técnica sem necessidade de nova colheita.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Controlo de Qualidade Externo de Endocrinologia (VEEEQAS)

Na INNO, temos o máximo compromisso com o rigor dos resultados das análises que efetuamos. Para além dos controlos internos de qualidade realizados diariamente, é importante que sejam realizadas auditorias por entidades externas, como forma de reforçar o prestígio do nosso serviço.

Neste contexto, estamos inscritos desde o início do ano no Veterinary European Endocrine External Quality Assurance Scheme (VEEEQAS), um programa de controlo de qualidade estabelecido pela Sociedade Europeia de Endocrinologia Veterinária (ESVE), em parceria com a Universidade de Nottingham e os laboratórios NationWide Specialist (NWL).

O programa consiste em controlos semestrais enviados à ESVE, única entidade a nível europeu a desenvolver este tipo de controlos.

Em junho, a INNO reportou ao coordenador do programa os resultados das primeiras medições. Fê-lo juntamente com outros 77 laboratórios – num total de 476 resultados – distribuídos um pouco por todo o mundo.



Comparando os resultados com os de outros laboratórios, através do cálculo da média do desvio-padrão obtido nas mediações dos analitos (AAASDM), a INNO posiciona-se no grupo de 12 laboratórios com os melhores resultados. A lista de laboratórios inscritos, que foi atualizada pela última vez em novembro de 2017, encontra-se aqui.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Novo método diagnóstico do Tétano: Toxinotipo de Clostridium tetani com identificação das toxinas tetânicas de A a F



Artigo da autoria de:
Ricardo Lopes, DVM
Laboratório Veterinário INNO
geral@inno.pt


O tétano é uma doença infeciosa causada por uma neurotoxina, formada durante o crescimento vegetativo da bactéria Clostridium tetani, que é um bacilo gram positivo, flagelado, não encapsulado, anaeróbio e produtor de esporos que podem sobreviver durante meses a anos.

A infeção desenvolve-se quando os esporos tetânicos contaminam feridas ou são inoculados por lesão penetrante com material contaminado. As toxinas, como a tetanospasmina, penetram nos axónios dos nervos motores, próximo da junção neuromuscular e ascendem por transporte intra-axonal retrógrado ao corpo neuronal na medula espinhal. Uma vez na medula, as toxinas ascendem bilateralmente até ao cérebro, migrando numa taxa de 75-250mm por dia. A tetanospasmina inibe a libertação dos neurotransmissores glicina e ácido gama-aminobutírico (GABA), responsáveis pelas respostas neuronais inibitórias, resultado em hiperexcitabilidade do sistema nervoso central (SNC). Com o progredir da infeção, há também a inibição dos neurotransmissores do centro inibitório parassimpático cardíaco, resultando no aumento do estímulo vagal. Os sinais clínicos desenvolvem-se geralmente em 5 a 10 dias, após infeção, sendo a progressão tanto mais rápida quanto mais proximal for a inoculação do SNC, ou quando a carga bacteriana é elevada.

Os cães e gatos apresentam resistência natural aos efeitos da toxina tetânica, quando comparados com outras espécies, especialmente o Homem e os equinos. Esta resistência deve-se à incapacidade da toxina em penetrar e ligar-se ao tecido nervoso. Contudo animais jovens e cães de raças grandes são mais comummente afetados.

O diagnóstico confirmatório é difícil, uma vez que a prova cultural do agente é bastante morosa e exige condições estritas de anaerobiose durante períodos prolongados, de no mínimo 12 dias. Para além de que a concentração do agente, sendo normalmente baixa nos tecidos infetados, dificulta a confirmação cultural.

Não havendo, neste momento, outros métodos de diagnóstico disponíveis, os testes moleculares tornam-se essenciais para a identificação das toxinas produzidas pelo agente e para confirmar a doença. Desta forma, apresentamos um novo método diagnóstico do tétano.

Para qualquer esclarecimento adicional, contacte o nosso laboratório.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Inovação em Microbiologia. Contagens bacterianas estáveis até 48 horas















A urina, a par do sangue, é o espécime mais frequentemente analisado em laboratórios de análises clínicas. De todas as análises efetuadas em urina, a cultura microbiológica é das mais sujeitas a alterações quando as condições pré-analíticas não são as ideais. Um dos principais problemas é o crescimento bacteriano que ocorre quando as amostras não são mantidas refrigeradas, ou sujeitas a transportes demorados. O crescimento de contaminantes pode, desse modo, sobrepor-se ao de germes patogénicos. 

Os tubos da Vacuette para cultura urinária contêm um conservante (ácido bórico) que mantém as contagens bacterianas estáveis até 48 horas à temperatura ambiente, eliminando a necessidade de refrigeração da urina. Outras características dos tubos são as tampas de segurança que evitam derramamento da amostra e a sua composição em plástico PET, que os torna virtualmente inquebráveis.

As vantagens do envio de amostras de urina para cultura microbiológica nestes tubos são evidentes, os diagnósticos são mais seguros, os resultados mais rápidos e menos pedidos de novas colheitas.

Para qualquer esclarecimento adicional, contacte o nosso laboratório.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Alteração ao Antibiograma Introdução da Cefovecina


Artigo da autoria de:
Augusto Silva, DVM
Laboratório Veterinário INNO
geral@inno.pt
     
       
A seleção de um antibiótico é uma decisão cuja importância é indissociável do fenómeno de resistência aos antibióticos e suas consequências, não só em termos de saúde do animal a ser tratado, como também em termos de saúde pública. Por esse motivo, a realização de culturas microbiológicas e o teste de sensibilidade a antibióticos (TSA) são uma análise indispensável para todos os CAMV's que pretendam fazer uma escolha baseada em critérios objetivos.

A realização desta análise tem, no entanto, que cumprir certos requisitos, tais como prazos de resposta e uma seleção de antibióticos adequados à realidade da prática clínica. As microbiologias do laboratório INNO são efetuadas num equipamento VITEK® 2, um equipamento automático que minimiza a manipulação humana e que, entre outras vantagens, permite obter a identificação dos organismos e respetivo TSA, após isolamento primário, em períodos substancialmente inferiores aos métodos tradicionais (1).

As cartas VITEK para realização do TSA utilizadas nas análises microbiológicas do laboratório INNO são cartas criadas especificamente para medicina veterinária, sendo testada a suscetibilidade dos agentes isolados a antibióticos exclusivos da medicina veterinária. Estas cartas são sujeitas periodicamente a revisões, cuja intenção é torná-las mais adequadas às moléculas e formulações comercialmente disponíveis no mercado veterinário. Assim, desde o ano passado, passou a ser incluído na lista de antibióticos testados a cefovecina, a substância activa do Convenia® e que, pela facilidade de administração e amplo espetro de ação, é amplamente utilizada nos CAMV's (2). Respeitando as indicações terapêuticas do antibiótico e as indicações do EUCAST (European Commitee on Antimicrobial Susceptibility Testing), passará então a ser emitido nos boletins de resultados das microbiologias o resultado do TSA dos seguintes agentes à cefovecina: Staphylococcus spp, Enterococcus spp, Streptococcus agalactiae e bacilos Gram negativo aeróbios de interesse clínico.

Para qualquer esclarecimento adicional, contacte o nosso laboratório.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Hipo ou Hipertiroidismo? Desmistificar a T4 Livre e T4 Livre por Equilíbrio de Diálise

Artigo da autoria de:
Ricardo Lopes, DVM MSc; Augusto Silva, DVM; Paula Brilhante Simões, DVM MSc
Laboratório Veterinário INNO

geral@inno.pt


A função da glândula tiroide é tipicamente avaliada pela medição da concentração dos níveis séricos das suas hormonas. Avaliar a capacidade de resposta da glândula tiroide à sua estimulação (p. ex. Teste de Estimulação com TSH) é considerado o teste gold standard no diagnóstico definitivo de disfunção tiroidea, contudo é raramente realizado na prática clínica devido aos elevados custos da TSH recombinante. Desta forma estão disponíveis testes que incluem a medição de T4, T4 livre (fT4), T3 livre (fT3) e 3,3’,5’triiodotironina (rT3), bem como a medição da concentração de TSH (1-7).

A tiroxina (T4) é a principal hormona secretada pela glândula tiroide. Uma vez em circulação, mais de 99% encontra-se ligada a proteínas plasmáticas. Apenas a sua porção livre, T4 livre (fT4) é biologicamente ativa, exercendo inibição por feedback negativo na secreção de TSH pituitária (7).

A tiroxina livre (fT4), como fração biologicamente ativa da tiroxina (T4), fornece informação mais precisa sobre a função da glândula tiroide do que a tiroxina sérica total (TT4) ou a triiodotironina (T3) (4)(7).

Diversas metodologias estão disponíveis para a medição de T4 livre (fT4) no soro. Embora a técnica gold standard para medição de tiroxina livre seja por equilíbrio de diálise, esta é uma técnica dispendiosa e morosa, uma vez que requer um processamento de vários dias, sendo quase exclusivamente realizada em laboratórios de investigação. Nos laboratórios comerciais, as medições de fT4 realizadas por equilíbrio de diálise têm por base técnicas de diálise modificadas (MED), nas quais as frações de tiroxina livre são isoladas, seguindo-se a sua medição, por técnicas de radioimunoensaio (RIA) ou quimiluminescência (1-8).

Estudos recentes (2-3)(9) demonstraram que a precisão diagnóstica das técnicas de medição de T4 livre por equilíbrio de diálise modificada (MED) variaram entre 86-93%, quando comparadas com técnicas comercialmente disponíveis para medição de T4 total, as quais apresentam precisão diagnóstica de 75-85% (2-3)(7).

Contudo, a maioria das técnicas de diálise utilizadas estão otimizadas para medicina humana, tendo por isso precisão diagnóstica pouco diferente da T4 total, e em alguns casos até menor, devido à especificidade da técnica e a variações do peso molecular proteico entre as diferentes espécies. Desta forma existem alternativas diagnósticas mais eficientes e específicas na medição de T4 livre (fT4) (3-8).

Com a necessidade diagnóstica específica em medicina veterinária, foi desenvolvida uma técnica inovadora para medição da T4 livre, o imunoensaio por quimiluminescência (CLIA), disponível apenas num dos equipamentos de endocrinologia mais sofisticados do mercado, o IMMULITE 2000® - Siemens Healthcare Diagnostics Products Ltd., Llanberis, Gweynedd, UK (9).

Neste equipamento a medição da T4 livre específica (VfT4) apresenta sensibilidade de 80% e 87%, especificidade de 97% e 100% e precisão diagnóstica de 89%, para caninos e felinos, respetivamente, conforme pode ser verificado na Tabela 1 (2)(7).


Esta técnica inovadora permite a medição de tiroxina livre (fT4) com uma precisão diagnóstica igual ou superior às técnicas de equilíbrio diálise padrão, em poucas horas, com volumes substancialmente menores de soro e consideravelmente menos dispendiosa (2)(7).

Embora a circulação de anticorpos anti-tiróideos não interfira com os resultados determinados pelas técnicas MED, a interferência com a técnica de imunoensaio por quimiluminescência (CLIA) é residual na medição de tiroxina livre específica (VfT4), o que não acontece com as restantes técnicas, nomeadamente por radioimunoensaio (RIA) (3).
Em suma, a precisão diagnóstica desta nova técnica, com recurso ao equipamento IMMULITE 2000®, Siemens Healthcare Diagnostics Products Ltd. é equiparável às técnicas mais avançadas de diagnóstico na disfunção tireóidea. Permitindo a mensuração da concentração de T4 livre (fT4) com uma sensibilidade, especificidade e precisão semelhantes ou superiores ao equilíbrio de diálise, tendo demonstrado ser um método inovador e de excelência, disponível como análise endocrinológica de rotina, para pacientes felinos e caninos (1-4)(7).


Precisão de Determinação de Tiroxina Livre por
Imunoensaio por Quimioluminescência Vs. Diálise de Equilíbrio
Técnica
Sensibilidade (%)
Especificidade (%)
Precisão (%)
Gatos*
Cães#
Gatos*
Cães#
Gatos*
Cães#
VfT4
87%
80%
100%
97%
89%
89%
fT4EDIVD
87%
92%
100%
90%
89%
91%
fT4EDAN
92%
71%
67%
100%
89%
86%
DfT4
89%
96%
100%
90%
91%
93%

Legenda: Immulite 2000® Veterinary Free T4 (VfT4) (Siemens Health Care Diagnostics). T4 Livre Direta por Equilíbrio de Diálise (fT4EDIVD) (IVD Tecnhologies, Santa Ana, CA, USA). T4 Livre por Equilíbrio de Diálise (fT4EDan) (Antech Diagnostics, Irvine, CA, USA). T4 Livre GamaCoatTM por radioimunoensaio (RIA) (DfT4) (Diasorin Inc).
*Estudo realizado num universo de 98 felinos, 53 clinicamente saudáveis e 45 com hipertiroidismo clínico 9
**Estudo realizado num universo de 56 caninos com sinais clínicos de hipotiroidismo, 31 eutiróides e 25 hipotiróides 2


Bibliografia consultada

1- Ferguson DC (2007). Testing for hypothyroidism in dogs, Vet Clin Small Anim 37:647.
2- Scott-Moncrieff JCR, et al. (2011). Accuracy of serum free thyroxine concentrations determined by a new veterinary chemiluminescent immunoassay in euthyroid and hypothyroid dogs, J Vet Intern Med 25:1493
3- Randolph JF, et al. (2015). Free thyroxine concentrations by equilibrium dialysis and chemiluminescent immunoassays in 13 hypothyroid dogs positive for thyroglobulin antibody, J Vet Intern Med 29:877–881
4- Feldman EC, Nelson RW, eds (2004). Canine and Feline Endocrinology and Reproduction, 3rd ed. St. Louis, MO: Saunders 85–151
5- Shiel RE, et al.(2007a). Thyroid hormone concentrations in young healthy pretraining greyhounds, Vet Rec 161:616.
6- Pinilla M, et al. (2009). Quantitative thyroid scintigraphy in greyhounds suspected of primary hypothyroidism, Vet Radiol Ultrasound 50(2):224
7- Feldman DC, et al. (2015). Canine & Feline Endocrinology, 4th ed. St. Louis, Saunders 97-107
 

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