quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Infeções do trato urinário em pequenos animais: um estudo retrospetivo das culturas urinárias entre 2017-2019


Microbiologia - urina
Artigo da autoria de:
Andreia Garcês DVM, MSc, PhD
Laboratório Veterinário INNO
andreiagarces@inno.pt


As infeções do trato urinário (ITU) são comuns em Medicina Veterinária, particularmente em canídeos. O seu diagnóstico é feito com base na história clínica (história de polaquiúria, estrangúria, disúria, hematúria, micção inadequada, ou periuria), exame físico, urianálise e cultura urinária. A cultura microbiológica combinada com os testes de sensibilidade é a melhor ferramenta para o diagnóstico e tratamento das ITU [1–4].

Neste trabalho analisamos os resultados de culturas urinárias admitidas no Laboratório veterinário INNO no período de 2017-2019, de forma a observar como tem evoluído neste período em Portugal a resistência antimicrobiana em bactérias isoladas de infeções do trato urinário de animais de companhia.

De 2017 a 2019 um total de 8274 amostras de urina foram submetidas para exame microbiológico. Destas 5778 tiveram crescimento amicrobiano e as restantes 2465 crescimento microbiano. Das amostras positivas um total de 2611 agentes foram isolados. Das amostras positivas 98% eram culturas puras, e 2% mistas. Os animais com infeção eram na sua maioria machos (56%). A classe de idade mais afetada foi entre 6-11 anos (31,6%), seguido dos animais geriátricos com 11-20 anos (30,6%). Neste estudo o principal agente isolado foi Escherichia coli, com uma prevalência de 47,6% (n=1244). Destas 1,9% (n=24) eram multiresistentes (MRD), 5,1% (n=64) apresentavam resistência a carbapenemes e 1,9%(n=24) eram enterobacteriaceae produtoras de β-lactamase de espectro alargados (ESBL).

Durante o período de 2017-2019, foi possível observar um aumento de resistência a antibióticos da categoria A, apesar de predominar a resistência aos antibióticos da categoria D. O predomínio de resistência a antibióticos da categoria D, era expectável, uma vez que são os antibióticos de primeira linha. Ao longo do período de 3 anos parece existir uma diminuição na percentagem de resitência nas categorias A, D. Na categoria A, é uma tendência que se deve tentar manter, uma vez que nestas duas categorias estão incluídas classes de antibióticos que são importante para medicina humana e alguns cujo uso é proibido em animais [5]Na categoria C parecem ter vindo aumentar a percentagem de resistências o que deve ser visto com preocupação.

O padrão de resistência é semelhante ao que tem sido descrito um pouco por toda a Europa. A baixa percentagem de ESBL e MRD E. coli já foi observada em outros estudos, apesar de já terem sido descritas percentagens mais elevadas na Europa [6,7].

Os resultados observados neste estudo contribuem para a compreensão dos padrões de resistência antimicrobiana ITU na população de animais domésticos em Portugal. A maioria das ITU são tratadas com sucesso com tratamento apropriado, mas infelizmente, devido à presença de bactérias multirresistentes o tratamento pode se prolongar ou ocorrer o risco de infeções recorrentes. Estas bactérias também são responsáveis pela debilidade do sistema imunitário do animal. Nestes animais é necessário identificar as causas associadas à predisposição para esta infeção e as terapias devem ser usadas como prevenção em vez de tratamento [3,4]. As culturas microbiológicas combinadas com os testes de sensibilidade são essenciais para um tratamento eficaz das ITU.


Bibliografia consultada:

1 - Guardabassi L, Schwarz S, Lloyd DH. Pet animals as reservoirs of antimicrobial-resistant bacteria. J Antimicrob Chemother. 2004;54(2):321–32. 
2 - Magiorakos AP, Srinivasan A, Carey RB, Carmeli Y, Falagas ME, Giske CG, et al. Multidrug-resistant, extensively drug-resistant and pandrug-resistant bacteria: An international expert proposal for interim standard definitions for acquired resistance. Clin Microbiol Infect [Internet]. 2012;18(3):268–81. Available from: http://dx.doi.org/10.1111/j.1469-0691.2011.03570.x 
3 - Weese JS, Blondeau JM, Boothe D, Breitschwerdt EB, Guardabassi L, Hillier A, et al. Antimicrobial use guidelines for treatment of urinary tract disease in dogs and cats: Antimicrobial guidelines working group of the international society for companion animal infectious diseases. Vet Med Int. 2011;2011. 
4 - Bartges JW. Diagnosis of urinary tract infections. Vet Clin North Am - Small Anim Pract. 2004;34(4):923–33. 
5 - Categorisation of antibiotics used in animals promotes responsible use to protect public and animal health | European Medicines Agency [Internet]. [cited 2020 Mar 2]. Available from: https://www.ema.europa.eu/en/news/categorisation-antibiotics-used-animals-promotes-responsible-use-protect-public-animal-health 
6 - Smee N, Loyd K, Grauer GF. UTIs in small animal patients: Part 2: Diagnosis, treatment, and complications. J Am Anim Hosp Assoc. 2013;49(2):83–94. 
7 - Punia M, Kumar A, Charaya G, Kumar T. Pathogens isolated from clinical cases of urinary tract infection in dogs and their antibiogram. Vet World. 2018;11(8):1037–42. 

terça-feira, 21 de julho de 2020

Imunocitoquímica de linfomas em lâminas de citologia – uma técnica em expansão


População de células linfóides Anticorpos anti-CD20 Categorização de antibióticos Figura 1. Linfoma de grandes células B difuso em cão. Punção por agulha fina de gânglio linfático pré-escapular aumentado. A - População de células linfóides médias a grandes e abundantes corpos linfoglandulares; e raros linfócitos pequenos. Diff-Quik, 400x. B - Anticorpos anti-CD20. Positividade maioritária em células linfóides neoplásicas (400x). C - Anticorpos anti-CD3. Positividade minoritária em células linfóides não neoplásicas (400x).
Artigo da autoria de:
Filipe Sampaio, DVM, MSc
Laboratório Veterinário INNO
filipesampaio@inno.pt


O exame citológico é um método rápido, fácil e económico que permite um diagnóstico confiável de linfoma em Medicina Veterinária [1]. A classificação de linfoma inclui um protocolo estruturado que engloba classificações histológicas, imunofenotípicas e moleculares que determinam diferentes prognósticos e esquemas terapêuticos [2-4]. Porém, para as realizações destes exames, os animais são muitas vezes sujeitos a intervenções médicas que envolvem custos adicionais.

Atualmente, o desenvolvimento e a aplicação de técnicas de imunofenotipagem em preparações citológicas submetidas aos nossos laboratórios, com ou sem coloração prévia, permitem obter informação sobre o fenótipo celular de uma forma simples e prática. Desta maneira, evita-se repetir procedimentos muitas vezes invasivos e dispendiosos, frequentemente associados a um considerável risco anestésico e que são morosos para os médicos veterinários.

A combinação de citologia com imunocitoquímica (ICQ) é um procedimento que já se provou eficaz na caraterização fenotípica das neoplasias linfoproliferativas [1, 3, 5, 6]. A ICQ é uma técnica usada para identificar microscopicamente antigénios em material citológico [5]. A classificação das células linfóides é feita recorrendo a anticorpos específicos, mono ou policlonais, identificando o fenótipo celular: B ou T.

A determinação do fenótipo B ou T, conjuntamente com a avaliação citológica das células linfóides, constitui uma importante ferramenta não só na classificação, mas também no prognóstico de linfomas [2, 5, 6].

Para mais esclarecimentos técnicos, contacte o nosso laboratório.


Bibliografia consultada:

1 - Caniatti, M., et al., Canine lymphoma: immunocytochemical analysis of fine-needle aspiration biopsy. Vet Pathol, 1996. 33(2): p. 204-12. 
 2 - Ponce, F., et al., A morphological study of 608 cases of canine malignant lymphoma in France with a focus on comparative similarities between canine and human lymphoma morphology. Vet Pathol, 2010. 47(3): p. 414-33. 
 3 - Sapierzynski, R., Practical aspects of immunocytochemistry in canine lymphomas. Pol J Vet Sci, 2010. 13(4): p. 661-8. 
 4 - Valli, V.E., et al., Classification of canine malignant lymphomas according to the World Health Organization criteria. Vet Pathol, 2011. 48(1): p. 198-211. 
 5 - Priest, H.L., et al., The use, publication and future directions of immunocytochemistry in veterinary medicine: a consensus of the Oncology-Pathology Working Group. Vet Comp Oncol, 2017. 15(3): p. 868-880. 
 6 - Raskin, R.E., et al., Optimized immunocytochemistry using leukocyte and tissue markers on Romanowsky-stained slides from dogs and cats. Vet Clin Pathol, 2019. 48 Suppl 1: p. 88-97.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Categorização dos antibióticos para utilização em animais


Categorização de antibióticos
Artigo da autoria de:
Augusto Silva, DVM
Laboratório Veterinário INNO
augustosilva@inno.pt


O surgimento e o aumento consistente de ocorrências de bactérias resistentes a múltiplos antibióticos são uma ameaça à saúde pública global. Tendo em vista a redução de bactérias resistentes que possam ser transferidas a humanos quer pela via da cadeia alimentar ou quer pelo contacto directo, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA), através do AMEG (Antimicrobial Advice Ad Hoc Expert Group), publicou no início de 2020 um documento onde é efectuada a categorização dos antibióticos para utilização em animais com vista a um uso prudente e responsável:

  • Categoria A (“Avoid”) inclui antibióticos actualmente não autorizados para utilização em medicina veterinária na UE. Estes antibióticos não podem ser usados em animais de produção e podem ser dados a animais de companhia apenas em circunstâncias excepcionais.

  • Categoria B (“Restrict”) inclui quinolonas, cefalosporinas de 3ª e 4ª gerações e polimixinas. Os antibióticos desta categoria são de elevada importância em medicina humana e o seu uso em animais deve ser restringido a situações de mitigação de risco para a saúde pública e quando não há alternativas clinicamente eficazes nas Categorias C e D.

  • Categoria C (“Caution”) inclui antibióticos para os quais geralmente existem alternativas em medicina humana na UE, mas nem sempre existem alternativas para utilização em medicina veterinária na Categoria D. Devem ser usados apenas quando não há substâncias clinicamente eficazes na Categoria D. Esta categoria inclui, entre outros, antibióticos dos seguintes grupos: aminoglicosídeos, cefalosporinas de 1ª e 2ª gerações, aminopenicilinas com inibidores das beta lactamases, macrólidos.

  • Categoria D (“Prudence”) inclui antibióticos que devem ser usados como primeira linha de tratamento sempre que possível, e apenas quando medicamente justificável. Esta categoria inclui, entre outros, antibióticos dos seguintes grupos: penicilinas sensíveis às beta lactamases, aminopenicilinas sem inibidores das beta-lactamases, tetraciclinas, sulfonamidas.


Outros factores a considerar na selecção do antibiótico para tratamentos individuais incluem a via de administração. Na lista abaixo são sugeridas as vias de administração e formulações, classificadas do menor para o maior impacto na resistência a antibióticos:

  • Tratamento tópico (p.ex: formulações para aplicação auricular ou ocular)

  • Tratamento parentérico (intravenoso, intramuscular ou subcutâneo)

  • Tratamento oral (comprimidos, suspensão oral)


Para informação mais detalhada pode consultar o site da EMA.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Tumores felinos mais frequentes – Uma abordagem racial em um estudo retrospectivo de 10 anos



Artigo da autoria de:
Andreia Garcês1, Leonor Delgado2, Paula Brilhante Simões2, Isabel Pires3,4, Felisbina Queiroga13, Justina Prada3,4
1 CITAB- Centro de Investigação e Tecnologias Agroambientais e Biológicas, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
2 INNO Laboratório, Serviços especializados em veterinária, Braga, Portugal
3 Departamento de Ciências Veterinárias da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
4 CECAV - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
geral@inno.pt


O cancro é uma doença comum em gatos, apesar de ser menos comum do que se tem vindo a observar em cães (Cannon, 2015). É um processo de várias fases e com uma etiologia multifatorial, como químicos, vírus oncogénicos, genética, hormonas e outros (Graf et al., 2016). Semelhante ao que já foi observado em cães, algumas raças de gatos puros parecem ter uma maior predisposição genética para desenvolver determinados tipos de tumores, provavelmente ligados à transmissão de genes anormais que são uma condição prévio para a transformação celular maligna, influenciando direta ou indiretamente os genes supressores de tumores e oncogenes (Davis e Ostrander, 2014).

Este estudo preliminar trata-se de uma pesquisa retrospetiva e descritiva que se baseou nos registos de 10 anos de diagnóstico de tumores em gatos fornecidos por um laboratório veterinário situado em Portugal. Os dados recolhidos incluíram os registos de diagnóstico de amostras produzidas por dois métodos de diagnóstico diferente: o exame post mortem e a biópsia, todas derivadas de exames microscópico. Apenas a informação relacionada com a raça e a localização do tumor nos diferentes órgãos foi utilizada. A classificação do tumor foi baseada na Classificação Internacional da OMS de Tumores de Animais Domésticos em 17 categorias diferentes (Meuten, 2017). Os tumores incluídos neste estudo tiveram origem na pele, tecidos moles, ossos, articulações, músculo, aparelho digestivo, glândulas endócrinas, olhos, aparelho genital, aparelho hemolinfático, fígado e vesícula biliar, glândula mamária, sistema nervoso, aparelho respiratório e aparelho urinário.

Foram analisados um total de 2785 gatos diagnosticados com tumores, de 8 raças diferentes: europeu de pelo curto (1788, 64,2%), maine coon (2, 0,10%), bosque da noruega (28, 1,0%), gato oriental de pelo curto (3, 0,1%), gato persa de pelo longo (152, 5,8%), siamês (170, 6,1%), angorá turco (3, 0,1%) e sem raça definida (629, 22,6%). No gato europeu de pelo curto, 42,2% (n = 755) dos tumores eram de origem mamária, 20,8% (n = 372) eram tumores mesenquimais da pele e tecidos moles e 15,8% (n = 283) eram tumores epiteliais e melanocíticos pele. Nos gatos persas de pelo longo, os tumores da glândula mamária foram os mais comuns 43,4% (n = 66), seguidos pelos tumores epiteliais e melanocíticos da pele (n = 28, 18,4%). O gato bosque da noruega apresentava 35,7% (n = 10) de tumores epiteliais e melanocíticos da pele e tecidos moles e 28,6% (n = 8) de tumores mesenquimais da pele e tecidos moles. No gato siamês, 45,3% (n = 77) eram tumores da glândula mamária e 21,2% (n = 36) tumores mesenquimais da pele e tecidos moles. Nos gatos sem raça definida, 39,4% (n = 248) dos tumores estavam localizados na glândula mamária e 18,0% (n = 113) eram tumores epiteliais e melanocíticos da pele.

Neste trabalho preliminar, os tumores da glândula mamária e os tumores mesenquimais da pele e tecidos moles foram os predominantes na população estudada. Estes estudos baseados numa grande quantidade de amostras recolhidas durante longos períodos de tempo, são importantes para entender a situação dos tumores felinos em Portugal. Os resultados atuais podem ser altamente úteis para informar melhor os clientes, diagnóstico e tratamento precoces de tumores felinos e também contribuem para a oncologia comparativa de humanos e animais de companhia.



Bibliografia consultada:

1 - Cannon C. Cats, Cancer and Comparative Oncology. Vet Sci 2015;2:111–26.
2 - Davis BW, Ostrander EA. Domestic dogs and cancer research: A breed-based genomics approach. ILAR J 2014;55:59–68.
3 - Graf R, Grüntzig K, Boo G, Hässig M, Axhausen KW, Fabrikant S, et al. Swiss Feline Cancer Registry 1965-2008: The Influence of Sex, Breed and Age on Tumour Types and Tumour Locations. J Comp Pathol 2016;154:195–210.
4 - Meuten D, editor. Tumors in domestic animals. 5th edition. Ames, Iowa: John Wiley & Sons Inc; 2017.
5 - Todorova I. Prevalence and Etiology of the Most Common Malignant Tumours in Dogs and Cats. Bulg J Vet Med 2006;9:85–98.

Tumores caninos mais frequentes - Uma abordagem racial em um estudo retrospectivo de 10 anos



Artigo da autoria de:
Andreia Garcês1, Leonor Delgado2, Paula Brilhante Simões2, Isabel Pires3,4, Felisbina Queiroga13, Justina Prada3,4
1 CITAB- Centro de Investigação e Tecnologias Agroambientais e Biológicas, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
2 INNO Laboratório, Serviços especializados em veterinária, Braga, Portugal
3 Departamento de Ciências Veterinárias da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
4 CECAV - Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal
geral@inno.pt


O cancro é uma doença comum em cães e representa uma das principais causas de mortalidade canina. Animais sem raça definida e de raça pura podem ser afetados (Komazawa et al., 2016). Embora a etiologia da maioria dos tumores seja provavelmente de origem multifatorial, algumas raças de cães com pedigree aparentam ter um maior risco para determinado tipo de tumores (Dobson, 2013; Grüntzig et al., 2016). Neste trabalho, o nosso objetivo foi determinar quais os tumores mais frequentes nas diferentes raças de cães existentes em Portugal.

Este estudo preliminar trata-se de uma pesquisa retrospetiva e descritiva que se baseou nos registos de 10 anos de diagnóstico de tumores em cães fornecidos pelo Laboratório INNO. Os dados recolhidos incluíram os registos de diagnóstico de amostras produzidas por dois métodos de diagnóstico diferente: o exame post mortem e a biópsia, todas derivadas de exames microscópico. Apenas a informação relacionada com a raça e a localização do tumor nos diferentes órgãos foram utilizadas. A classificação do tumor foi baseada na Classificação Internacional da OMS de Tumores de Animais Domésticos em 17 categorias diferentes (Meuten, 2017). Os tumores incluídos neste estudo tiveram origem na pele, tecidos moles, ossos, articulações, músculo, aparelho digestivo, glândulas endócrinas, olhos, aparelho genital, aparelho hemolinfático, fígado e vesícula biliar, glândula mamária, sistema nervoso, aparelho respiratório e aparelho urinário.

Foram analisados no total 10781 cães diagnosticados com cancro, de 88 raças diferentes. As raças predominantes foram: cães de raça não definida (4291, 39.8%), labrador retriever (1010, 9.4%), cocker spaniel inglês (469, 4.4%), pastor alemão (365, 3.4%), husky siberiano (276, 2.6%), yorkshire terrier (277, 2.6%), golden retriever (274, 2.5%), pinscher miniatura (131, 1.2%) e o pitbull terrier americano (116, 1.1%).

Nos cães de raça não definida, 32.6% (n=1398) dos tumores tiveram origem na glândula mamária e 21.3% (n=912) eram tumores epiteliais e melanocíticos da pele. Nos huskies siberianos 31.9% (n=88) eram tumores epiteliais e melanocíticos da pele e 24.6% (n=68) tumores da glândula mamária. No yorkshire terrier 21.3% (n=59) eram tumores epiteliais e melaníticos da pele e 44.4% (n=123) tumores da glândula mamária. O cocker spaniel inglês observou-se que 32.9% (n=154) eram tumores da glândula mamária e 27.3% (n=128) tumores epiteliais e melanocíticos da pele. No pastor alemão 35.1% (n=128) dos tumores eram da glândula mamária e 25.2% (n=92) tumores epiteliais e melanocíticos da pele. No golden retriever 27.4% (n=75) dos tumores eram epiteliais e melanocíticos da pele e 16.4% (n=45) da glândula mamária. No labrador retriever 23.0% (n=232) dos tumores eram epiteliais e melanocíticos da pele e 20.7% (n=209) tumores mesenquimatosos da pele e tecidos moles.

Neste trabalho podemos observar que os tumores epiteliais e melanocíticos da pele são os predominantes, seguidos de tumores mesenquimatosos da pele e tecidos moles e glândula mamária. Poucos estudos desta magnitude foram publicados, fazendo deste trabalho uma importante contribuição para a epidemiologia de tumores caninos. Para além disso, os resultados apresentados podem também ser uma contribuição para o campo da oncologia comparada.


Bibliografia consultada:

1 - Anfinsen KP, Grotmol T, Bruland OS, Jonasdottir TJ. Breed-specific incidence rates of canine primary bone tumors - a population based survey of dogs in Norway. Can J Vet Res 2011;75:209–15. 
2 - Dobson JM. Breed-Predispositions to Cancer in Pedigree Dogs. ISRN Vet Sci 2013;2013:1–23.
3 - Grüntzig K, Graf R, Boo G, Guscetti F, Hässig M, Axhausen KW, et al. Swiss Canine Cancer Registry 1955–2008: Occurrence of the Most Common Tumour Diagnoses and Influence of Age, Breed, Body Size, Sex and Neutering Status on Tumour Development. J Comp Pathol 2016;155:156–70. 
4 - Komazawa S, Sakai H, Itoh Y, Kawabe M, Murakami M, Mori T, et al. Canine tumor development and crude incidence of tumors by breed based on domestic dogs in Gifu prefecture. J Vet Med Sci 2016;78:1269–75. 
5 - Meuten D, editor. Tumors in domestic animals. 5th edition. Ames, Iowa: John Wiley & Sons Inc; 2017.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Otite externa: uma colheita adequada é fundamental para o diagnóstico



Artigo da autoria de:
Daniela Duque, DVM
Laboratório Veterinário INNO
danieladuque@inno.pt


A otite externa é uma das queixas mais comuns nas consultas de cães e gatos. Há numerosos agentes envolvidos tais como fungos (Malassezia pachydermatis), ácaros (Octodectes cynotis) e bactérias (Staphylococcus spp., Proteus spp. Pseudomonas spp., Escherichia coli).1 No caso dos ácaros estes podem atuar com agentes primários na otite externa enquanto os fungos e bactérias são geralmente considerados oportunistas e fatores perpetuadores na patogénese da otite.1 Nas causas primárias, para além dos ácaros, incluem-se por exemplo processos alérgicos e endocrinopatias que ao originarem reações inflamatórias levam à proliferação da microflora local.1

Para um correto maneio da otite externa em cães e gatos é fundamental determinar, para cada caso, as causas primárias predisponentes e perpetuadoras da patologia. Para além disso, é essencial um diagnóstico e escolha adequada do tratamento.1

Para um correto diagnóstico de otite externa é fundamental um bom exame físico, parasitológico, citológico e cultural permitindo a identificação da etiologia e de seguida a escolha do tratamento adequado evitando desta forma as recidivas e insucessos terapêuticos.1

Quanto à colheita do material para citologia e cultura é importante que esta seja feita de forma asséptica, sendo recomendada a limpeza superficial do pavilhão auricular com gaze estéril e soro fisiológico. De seguida, utilizando uma zaragatoa deve friccionar-se a parede do canal auditivo, o mais profundamente possível, evitando o contacto com o cerúmen e outros materiais contaminados. Devem ser utilizadas zaragatoas diferentes para citologia e cultura. No caso da citologia, o material da zaragatoa deve ser espalhado suavemente numa lâmina logo após a colheita e na cultura a zaragatoa deve ser colocada no meio de transporte e imediatamente fechada.

Os agentes mais frequentemente isolados nas culturas auriculares são: Pseudomonas aeruginosa, S. pseudointermedius, E. coli e Proteus mirabilis. Uma vez que os exsudados auriculares são por norma extremamente contaminados, o tempo de resposta destas culturas é, inevitavelmente, mais prolongado, pois exige múltiplas repicagens das colónias em crescimento, até se conseguir uma cultura pura do agente predominante, que será o causador da doença. Quanto mais asséptica for a colheita, menor a contaminação e também menor a probabilidade de resultados inconclusivos indesejados (polimicrobianos).

Após a identificação por citologia e cultura de um eventual agente infecioso é essencial a realização de um antibiograma. Para uma adequada abordagem terapêutica deve ser realizada limpeza e administração preferencialmente tópica de anti-inflamatório e antibiótico. A antibioterapia deve sempre ser realizada de acordo com a suscetibilidade do agente em causa.2


Bibliografia consultada:

1 - Nardoni S, Ebani, VV, Fratini F, Mannella R, Pinferi G, Mancianti1 F, Finotello R, Perrucci S. Malassezia, mites and bacteria in the external ear canal of dogs and cats with otitis externa. Slov Vet Res 2014; 51(3):113-18. 
 2 - Malayeri HZ, Jamshidi S, Salehi TZ. Identification and antimicrobial susceptibility patterns of bacteria otitis externa in dogs. Vet Commun 2010; 34:435-444.
 

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